20121004

Facebook tenta lucrar vendendo dados de usuários



A Facebook Inc. está experimentando novas maneiras de aproveitar seu maior ativo – os dados sobre cerca de 900 milhões de pessoas, reacendendo as preocupações sobre privacidade. A estratégia da empresa é vender o acesso aos seus usuários.

Para aumentar a eficácia dos anúncios em seu site, nos últimos meses a Facebook começou a permitir que os anunciantes direcionem suas mensagens aos usuários com base no e-mail e número de telefone que estes divulgam em seus perfis, ou com base nos seus hábitos de acesso a outros sites.

A empresa também começou a vender anúncios que seguem os usuários de sua rede social fora dos limites do site.

E o que mais irrita os defensores da privacidade: a Facebook está usando seu tesouro de dados para estudar as relações entre os anúncios em seu site e os hábitos de compras dos usuários em lojas físicas. 
É parte de um esforço para provar às firmas de marketing a eficácia da publicidade no Facebook, um negócio de US$ 3,7 bilhões dólares anuais.

A Facebook não divulgou quais anunciantes participam dos estudos. Em princípio, estes permitem que uma firma de marketing de um xampu, por exemplo, fique sabendo, em números totais, o quanto um anúncio visto no Facebook aumenta as vendas em todo um conjunto de varejistas.

A Facebook está tomando essas iniciativas, que mostram algum sucesso inicial, em um momento em que enfrenta pressão dos investidores para se tornar um nome mais forte na publicidade digital.
Mas ao fazer isso, a empresa sediada em Menlo Park, na Califórnia, está pisando em uma divisão sutil entre usar dados dos usuários para atrair dólares de marketing e cumprir suas promessas, feitas aos usuários e às autoridades reguladoras, de manter a privacidade desses dados pessoais.
"Estamos trabalhando para que fique mais fácil para os anunciantes alcançar as pessoas certas, na hora certa e no lugar certo", disse Gokul Rajaram, gerente de anúncios da Facebook. Ele acrescentou que as recentes alterações relativas a anúncios são feitas "de uma forma que respeita a privacidade do usuário".

Executivos da Facebook, incluindo a diretora operacional Sheryl Sandberg, estão louvando as últimas ofertas da rede social para os profissionais de marketing, nos eventos da Semana de Publicidade realizada esta semana.

Muitos dos novos serviços do Facebook repetem capacidades de direcionamento de anúncios que empresas como Google e Yahoo já oferecem há anos, e a Facebook já divulgou que se esforça para seguir as práticas do setor relativas a dados [de usuários].

A Facebook afirma que não vende dados sobre usuários individuais aos anunciantes, e nem sequer permite que estes vejam os dados diretamente. Mas os defensores da privacidade dizem que o site Facebook merece um exame especial, porque, em muitos casos, contém mais informações pessoais sobre a identidade real das pessoas do que outras empresas de internet, aumentando o potencial para o abuso.

A essência da nova estratégia ampliada de marketing é o fato de que a rede social sabe muito sobre a identidade verdadeira dos seus usuários. Embora o site Google faça inferências sobre as pessoas com base em seus hábitos de pesquisa e de navegação, a Facebook se baseia em informações dadas pelas pessoas voluntariamente, dados pessoais que são valiosos para os anunciantes, incluindo nomes, amigos, números de telefone, gostos e tendências.

Em setembro, a Facebook começou a permitir que os anunciantes, dotados de suas próprias listas de e-mails e telefones, direcionem anúncios a grupos específicos de usuários, de pelo menos 20 de cada vez. O Facebook.com faz a ligação entre esses dados vindos de fora com as informações que os usuários inseriram em seu perfil.

Uma loja de roupas, por exemplo, poderia usar o serviço para alcançar certos clientes-alvo, com base em suas compras passadas; ou um banco poderia direcionar anúncios apenas a clientes com um saldo bancário elevado.

Nos últimos meses, a Facebook também começou a usar os dados de identidade para experimentar vender anúncios em outros sites e em aplicativos.

Recentemente a empresa começou a colocar anúncios no site de jogos Zynga.com, por exemplo, e em setembro anunciou que vai começar a colocar anúncios em aplicativos de terceiros em smartphones. 
Em ambos os casos, ela consegue direcionar os anúncios a pessoas específicas porque estas entram no site de jogos através da sua página no Facebook.

Segundo analistas, as experiências indicam que a Facebook pode acabar criando sua própria rede de publicidade, tornando os anúncios na rede social onipresentes em toda a web e nos smartphones.
Rajaram disse que a empresa ainda está testando a eficiência dos anúncios em outros sites. A Zynga Inc. não quis comentar.

Os dados de usuários também estão ajudando a Facebook a reforçar seu argumento de vendas sobre a eficiência dos seus anúncios. Em agosto, a rede social revelou que estava trabalhando com a firma de mineração de dados Datalogix, para verificar se o fato de ver anúncios no Facebook leva os usuários a comprar mais produtos desses anunciantes em lojas físicas.

A Datalogix coleta informações de varejistas sobre quais produtos os clientes compram em lojas, e então trabalha com a Facebook para comparar esses dados com endereços de e-mail e outros dados dos usuários do site, tentando compreender quais dessas pessoas podem ter visto anúncios de certos produtos no Facebook.

Os testes, que foram realizados em cerca de 50 campanhas publicitárias no Facebook, mostram que em 70% dos casos, US$ 1 gasto em publicidade no Facebook resulta em um acréscimo de US$ 3 nas vendas, segundo informou a Facebook.

Especialistas em privacidade dizem que as ações da Facebook, embora não sejam inusitadas na indústria de publicidade on-line, merecem uma análise especial.

Na semana passada, o Centro de Informações sobre Privacidade Eletrônica (Epic na sigla em inglês) apresentou uma queixa à Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos sobre as novas práticas da Facebook, e em especial sua relação com a Datalogix e com um serviço de compra de anúncios chamado Facebook Exchange.

Há anos os usuários do Facebook já sabem que "podem ser alvo de anúncios com base no que postaram on-line, mas isso ficava separado do que a pessoa fazia fora do Facebook, ou no mundo real", disse David Jacobs, advogado de proteção ao consumidor da EPIC. "Agora as regras mudaram e essas informações estão sendo relacionadas com outras, ou entrando em referências cruzadas. É problemático mudar as regras sobre as pessoas."

A Epic divulgou que a Facebook tinha violado um acordo feito em julho com os reguladores, que exige que a rede social revele claramente e obtenha o consentimento dos usuários antes de transmitir informações a terceiros. A Epic divulgou que a Comissão Federal de Comércio não respondeu publicamente às queixas. Um porta-voz da Datalogix disse que as denúncias da Epic não têm mérito.

A Facebook informou que está confiante de que está agindo em conformidade com suas obrigações legais. Segundo a empresa, no processo de combinar seus dados com os da Datalogix, cada uma não revela os dados pessoais à outra, de modo que elas não podem usá-los para construir perfis de pessoas específicas. Fonte The Wall Street Journal.


 

20120925

Como combater o desejo irresistível de comer

Um cupcake está chamando.
Você praticamente pode sentir o gosto dessa delícia doce e cremosa. Você quer tanto comer um que não consegue pensar em mais nada. Mas será que você realmente está com vontade de sentir esse gosto — ou será que você apenas busca as associações agradáveis que ele traz? Ou será que você precisa comer um em parte por saber que não deveria? Será que lutar contra essa fissura acabará com ela ou a tornará pior?

Os cientistas têm estudado todas essas questões para tentar compreender as ânsias por comida. As pesquisas nessa área têm ganhado um novo senso de urgência devido à epidemia de obesidade que acomete os Estados Unidos e já começa a dar sinais no Brasil e em outros países, uma vez que os desejos incontroláveis por comida são amplamente vistos como uma forte influência sobre o comportamento das pessoas que vivem beliscando, têm compulsão por comida ou bulimia.

Algumas das descobertas feitas até o momento:
Os desejos incontroláveis por comida ativam os mesmos circuitos de recompensa do cérebro que as fissuras por drogas ou álcool, segundo mostraram exames de ressonância magnética — testes que medem a atividade cerebral ao detectar alterações no fluxo sanguíneo.

Quase todas as pessoas têm desejos incontroláveis por comida de vez em quando, mas as mulheres dizem ter esses acessos com mais frequência do que os homens — e os mais jovens têm mais vontade de comer doces do que os mais velhos.

Em um estudo, 85% dos homens disseram se sentir satisfeitos após se renderem aos seus desejos incontroláveis por comida; entre as mulheres, esse percentual foi de apenas 57%.

Apesar de muitas mulheres relatarem uma vontade incontrolável por ingerir sal, gordura ou combinações bizarras de alimentos durante a gravidez, pesquisadores não têm encontrado provas científicas. Eles desconfiam que folclore e poder da sugestão sejam as causas.

Durante décadas, pesquisadores suspeitaram que os desejos por comida fizessem parte dos esforços inconscientes do corpo para corrigir deficiências nutricionais. O desejo por um bife poderia indicar a necessidade de proteína ou ferro, segundo essa teoria. Os chocólatras poderiam ter baixos níveis de magnésio ou outras substâncias químicas que alteram o humor e que estão presentes no chocolate.

Mas um número crescente de pesquisas coloca em dúvida essa noção. Afinal, poucas pessoas sentem desejo de consumir verduras cheias de vitaminas.
Ao contrário, estudos mostram que as fissuras por comida envolvem uma mistura complexa de fatores sociais, culturais e psicológicos, que é fortemente influenciada por estímulos ambientais.

Enquanto o chocolate é, de longe, o tipo de alimento que mais provoca desejos nos EUA, mulheres japonesas têm uma propensão maior a sentir desejo por sushi, segundo um estudo recente. E apenas 1% dos jovens egípcios e 6% das jovens egípcias relataram sentir desejo por comer chocolate, de acordo com um levantamento realizado em 2003. "Muitas línguas não têm uma palavra para 'craving'", diz a psicóloga Julia Hormes da Universidade de Albany, referindo-se ao termo em inglês que pode ser traduzido no Brasil como "fissura". "Esse conceito parece ser importante apenas na cultura norte-americana", diz Hormes.

Nos EUA, cerca de 50% das mulheres que sentem desejo por chocolate dizem que suas fissuras alcançam o pico durante o início de seu período menstrual. Mas os pesquisadores não encontraram nenhuma correlação entre as fissuras por comida e os níveis hormonais — e as mulheres que já chegaram à menopausa não relatam uma queda significativa na vontade de comer chocolate, mostrou um estudo de 2009. Alguns psicólogos suspeitam que as mulheres possam estar se "automedicando", uma vez que doces e carboidratos desencadeiam a liberação de serotonina e de outros químicos no cérebro que causam bem-estar.

Um estudo realizado no ano passado com 98 estudantes do sexo feminino da Universidade da Pensilvânia constatou que aquelas que relataram ter mais fissuras alimentares relacionadas ao ciclo menstrual também tinham um histórico de dietas e distúrbios alimentares, além de apresentarem altos índices de massa corporal. "Essas parecem ser mulheres que pensam: 'Eu não deveria comer chocolate de jeito nenhum'. Mas, em seguida, elas não resistem e comem uma barra inteira", diz Hormes, que coordenou a maior parte da pesquisa realizada na Universidade da Pensilvânia. "Quanto mais elas tentam restringir seu consumo, mais elas sentem essas fissuras."

Geralmente, as pessoas sentem desejo por alimentos de que gostam — mas nem sempre é assim. "É possível gostar de um alimento sem sentir um desejo incontrolável por ele, da mesma forma que é possível sentir fissura por um determinado tipo de alimento sem que se goste dele", diz Marcia Pelchat, psicóloga alimentar da empresa de pesquisas Monell Chemical Senses Center.

Um exemplo é pipoca vendida nos cinemas. Segundo Pelchat, "a maioria das pessoas admite que a pipoca vendida nos cinemas não é a melhor do mundo, mas se a fila da pipoca estiver grande demais e você não conseguir comprar, você pode bem ficar desejando a pipoca."

Exames de ressonância magnética funcional feitos por Pelchat mostraram que os desejos fortes por alimentos causados pela memória sensorial ativam as mesmas regiões do cérebro que as fissuras por álcool e drogas. Entre essas regiões cerebrais estão o hipocampo, que auxilia no armazenamento das memórias, a ínsula, envolvida nas percepções e nas emoções, e o núcleo caudado, que é importante para o aprendizado e para a memória. Esse circuito é impulsionado pela dopamina, neurotransmissor responsável pelo aprendizado movido a recompensa.

Especialistas dizem que essas fissuras alimentares são aceitáveis de vez em quando — digamos, por panetone no Natal, ou por escolhas alimentares saudáveis durante o restante do ano. Mas se render às tentações constantemente pode fazer com que esses desejos saiam do controle.

Pesquisadores que estudam o cérebro observaram que, quando as pessoas bombardeiam seus circuitos de recompensa constantemente com drogas, álcool ou alimentos ricos em açúcar, muitos dos receptores de dopamina de seu sistema param de funcionar para impedir uma sobrecarga. E, com um número menor de receptores de dopamina trabalhando, o sistema começa a apresentar mais e mais desejos, tornando-se insaciável. "Logo, um cupcake já não é suficiente. A pessoa tem que se entupir e nem assim conseguirá obter a recompensa que procura", diz Pam Peeke, médica e escritora de livros sobre alimentação. Ela observa que o vício de comer cria alterações no córtex pré-frontal, que normalmente domina a impulsividade e os ímpetos viciantes.

Qual é a melhor maneira de lutar contra essas fissuras? Muitos estudos mostraram que, quanto mais as pessoas tentam restringir um alimento, mais elas o desejam. Por isso, alguns especialistas recomendam aceitar a fissura e controlá-la.

Um estudo de 2003 do University College de Londres constatou que as pessoas que comiam chocolate só durante ou logo após as refeições conseguiram parar de ingerir o alimento mais facilmente do que aquelas que ingeriam chocolate com o estômago vazio.

A terapia cognitivo-comportamental também pode ser útil. Pesquisadores de Adelaide, na Austrália, entregaram a 110 chocólatras declarados um saco de chocolates para ser carregado onde quer que eles fossem durante uma semana, e aplicaram a metade delas uma "reestruturação cognitiva" — questionando suas ideias a respeito do chocolate —, enquanto a outra metade passou por uma "neutralização cognitiva" — para aceitar e observar suas ideias sem agir a partir delas. Ao final do experimento, o grupo que passou pela neutralização tinha três vezes mais chocolates do que o outro grupo.

Exercícios também podem ajudar. Mulheres que caminharam vigorosamente sobre uma esteira durante 45 minutos apresentaram reações cerebrais bastante inferiores a imagens de alimentos, segundo um novo estudo da Universidade Brigham Young, nos EUA.

Outras formas de distração são mascar chiclete e cheirar um produto não relacionado a alimentos. Aspirar o aroma de jasmim, por exemplo, ajuda a ocupar os mesmos receptores que atuam nos fortes desejos alimentares.
E estudos mostram que, quanto mais tempo as pessoas adiam a ingestão do alimento desejado, mais fracas fica a fissura. Fonte The Wall Street Journal.

Narciso Machado


20120922

Muito além da gestão


Entre uma pincelada e outra, o executivo Geraldo Pontes, da Fiemig, exercita seu lado artístico enquanto pensa sobre os novos desafios dos administradores em um cenário de mudanças constantes

Quando Jimi Hendrix perguntou em seu primeiro disco em 1967: "Are You Experienced?", provavelmente o guitarrista estava se referindo às experimentações psicodélicas que despontavam naquele momento de grandes transformações socioculturais.
O que os executivos buscam hoje em experimentos que vão das artes plásticas à astrofísica não é muito diferente do que o músico propunha. Eles querem entender um mundo em movimento onde a tecnologia, a economia criativa, as redes colaborativas e a nova divisão de forças no planeta geram desafios inusitados para a gestão.

Com o propósito de tirar os executivos da zona de conforto e pensar sobre esses temas e uma gestão contemporânea à brasileira, a Fundação Dom Cabral montou o curso "FDC Experience". Com ele, a instituição segue os passos de escolas de negócios renomadas como Stanford e Harvard que incluíram as artes e ciências humanas no ensino de liderança.

Em quase dois dias, 300 profissionais de vários estados brasileiros, de áreas diversas, que ocupam cargos de gestores em suas companhias, experimentaram na sede da FDC em Nova Lima (MG) situações que aparentemente não têm muito a ver com administração. Eles pintaram, grafitaram, fizeram caleidoscópios, jogaram xadrez, videogame e ouviram palestras de filósofos, físicos e pensadores. Entre um rabisco e uma surpresa, pensaram sobre o modo como podem dirigir melhor suas empresas em um cenário de mudanças constantes.

"É bom poder sair um pouco da pressão do dia a dia. As ideias surgem quando vemos coisas diferentes", diz Rosana Martins, vice-presidente de recursos humanos da Schneider Electric. Ela foi uma das participantes de uma experiência onde todos entravam em uma sala escura, vendados, para discutir legado e a importância das conexões sociais. "Não pensava muito sobre a morte antes daqui."

O objetivo do programa, segundo Roberto Sagot, diretor executivo da FDC, é justamente trabalhar com a subjetividade. "Para fazer gestão hoje não se pode considerar apenas os aspectos cartesianos", explica. As empresas têm hoje várias gerações convivendo sob o mesmo teto, onde pessoas de diferentes culturas atuam no mesmo negócio. "O desafio é muito mais comportamental. É saber trabalhar junto". A parte lúdica do programa, segundo ele, é inspirada em museus e exposições de arte. "Brincar é coisa séria". O professor Ricardo Carvalho ressalta: "Apenas 3% dos insights criativos acontecem no escritório."

A empresária Alayde Garcia, de 68 anos, dona do frigorífico Vitello, veio do Amazonas com a filha para participar do curso. Ela fez grafite virtual e topou todas as propostas do programa. "Quero quebrar preconceitos, me desarmar e conhecer o novo. Ainda me sinto muito disposta a continuar trabalhando", diz. Esse espírito de aventura juntou cabelos brancos e jovens em discussões acaloradas sobre temas diversos como o futuro do mercado editorial, das cidades e até do empreendedorismo social.

A tecnologia, inevitável e desafiadora, foi um assunto recorrente nos debates por preocupar tanto os jovens quanto os mais velhos, ainda que por diferentes razões. "Mais de 40% dos adolescentes americanos poderiam mandar uma mensagem de texto de olhos vendados", afirma Luli Radfahrer, um dos palestrantes. Para os jovens, é fácil perder o controle do tempo diante das inúmeras possibilidades e ferramentas tecnológicas. Os mais experientes, por sua vez, ainda se amedrontam diante da rapidez com que precisam se atualizar. "Digerir o Facebook é como entrar em uma longa estrada sem saída", disse um participante.

Um labirinto mostrava fotos, vídeos e textos sobre a história do Brasil e a evolução da gestão moderna. Nele, obras sem legendas conduziam ou confundiam sensorialmente o participante no trajeto até uma sala para reflexões. Em um único ambiente estavam Andy Warhol, Caetano Veloso, Max Weber, Peter Drucker e Clarice Lispector. "Quando o caminho é sinuoso, precisamos pensar mais para tomar a decisão certa", disse um executivo ao fim do percurso.

A maneira como os brasileiros administram os negócios, com flexibilidade e improviso, é ressaltada em várias plenárias como um exemplo para os dilemas da gestão moderna. Em uma sociedade que se conecta cada vez mais em um emaranhado de redes, a experiência do país na maneira como organizamos as coisas pode ser valiosa. "Conhecemos isso muito bem porque estamos habituados a lidar com a complexidade", diz a filósofa Viviane Mosé. Na conclusão do curso, o moderador afirma que o modelo de gestão está mudando, mas não existe uma fórmula a ser seguida nesse momento. "É preciso levar as interrogações para casa."

Enquanto termina seu segundo quadro, em um espaço reservado à pintura, pouco antes do fim do programa, o consultor Geraldo Pontes, da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemig), diz que ficou feliz ao perceber o otimismo em relação ao papel que o Brasil pode exercer nessa nova força de encarar a gestão. "É o momento de se quebrar paradigmas para acompanhar essas mudanças", afirma. "Acho que é isso que vou dizer para o pessoal do trabalho amanhã." Fonte Jornal Valor.


Narciso Machado 

NCM Business Intelligence

Muito além da gestão

20120802

Quem consegue tirar férias do Twitter?

Na véspera de uma viagem, Eva Chen, diretora de beleza da revista "Teen Vogue" enviou um tweet: "Estou oficialmente de férias!"

Nos cinco dias seguintes, enquanto dirigia pelo Estado do Arizona, no sudoeste dos Estados Unidos, ela publicou mais de 120 "tweets", fez check-in umas 15 vezes no Foursquare e postou mais de 30 fotos no Instagram.

Ao ver o Grand Canyon pela primeira vez, ela imediatamente tirou uma foto para compartilhar com seus mais de 32.600 seguidores no Twitter.

Tweets do chefe de cozinha celebridade Andrew Zimmern enviado de uma casa de campo.

"Quero compartilhar a viagem com eles", diz Chen sobre sua comunicação.

Nesta era de gente hiperconectada, as redes sociais não dão folga, nem mesmo nas férias. Ao contrário dos blogs, onde uma mensagem pode ser publicada alertando aos leitores que o blogueiro vai se ausentar, a conversa continua fluindo no Twitter, no Facebook e no Instagram.

Se você deixa de contribuir, sai da discussão. Na melhor das hipóteses, seus seguidores vão enviar mensagens para você no Twitter perguntando sobre seu paradeiro. Na pior das hipóteses, elas não vão nem perceber que você sumiu.

Grandes marcas empresariais normalmente contam com uma equipe de funcionários para manter sempre ativa a presença social; quando alguém sai de férias, outros preenchem a lacuna.

Tweets de celebridades em férias.

Mas os personagens mais atraentes das redes sociais, sejam eles uma marca, uma pequena empresa ou uma pessoa dentro de uma organização maior, normalmente são resultado do trabalho de um indivíduo, com uma personalidade e voz únicas. Seus seguidores não aceitam substitutos. E os poderosos da comunidade Twitter não querem perder tração ao deixar de falar com a base de seguidores na qual investiram tempo e esforço para construir.

"Não acho que seja uma invasão das minhas férias", diz Aliza Licht, diretora sênior de comunicações globais para Donna Karan Co., que reúne mais de 413.600 seguidores na conta do Twitter @DKNY. Ela também lê e responde e-mails de trabalho durante as férias.

"Não me sinto bem, estar afastada não combina com minha personalidade", diz ela. O marido e os filhos "aceitam" sua hiperconectividade social, diz ela. Às vezes, "meu marido sugere tweets", diz.

Licht, que tem representado a grife por quase 14 anos, posta tweets de lugares atraentes como o hotel Four Seasons, em Paris, ou de lugares que ela considera mais "rústicos", como Atlantic Beach, uma praia no Estado de Nova York, onde ela é membro de um clube de verão.

Na era da interconectividade, o conceito de se desligar nas férias parece cada vez mais fraco.

Em todas as viagens que faz, Licht leva peças Donna Karan e DKNY e publica tweets enquanto faz as malas com fotos de cada conjunto, incluindo os diversos pares de sapato e bolsas para cada noite, produzidas como uma página de uma revista de moda.

Seus seguidores apreciam o esforço. "Todo mundo pode ir à praia, mas nem todos podem ir à praia como Aliza", diz Claire Biggs, escritora freelance de Nova York e uma das seguidoras fiéis de Licht no Twitter.

O mesmo acontece com a chefe dela. "Seu enorme senso de diversão e autenticidade refletem na nossa marca e nos dão uma presença social irresistível", diz Patti Cohen, diretora executiva de marketing global e comunicações da Donna Karan.

Melanie Notkin, fundadora da SavvyAuntie.com Inc., empresa e site que se concentram nas mulheres com sobrinhos, sente a responsabilidade de se engajar com seus seguidores nas redes sociais. As pessoas que tomam tempo para compartilhar uma foto ou uma história merecem uma resposta. "Não posso ignorá-los", diz Notkin de seus mais de 19.800 seguidores no Twitter.

Como proprietária de uma pequena empresa, Notkin diz que ela nunca tira férias longas. Mas mesmo em um fim de semana na praia, ela adverte às pessoas ao seu redor sobre sua necessidade de ficar checando o telefone.

Nem todos os tweets de Notkin são ligados à experiência de ser tia; coletivamente eles pintam um retrato da vida de uma mulher solteira em Manhattan.

"Muitas pessoas que me seguem gostam dos aspectos pessoais da minha vida", diz Notkin. Mas há um momento em que ela deixa o smartphone de lado: "Eu não bebo e envio tweets", diz ela.

Andrew Zimmern, criador e apresentador do Travel Channel "Comidas Exóticas", diz que o Twitter é a sua fonte de notícias. Ele diz que publica até 50 tweets por dia, enquanto trabalha, mas com menos frequência durante as férias. "É um prazer pessoal", diz ele sobre sua conta no Twitter, que tem mais de 410.800 seguidores.

Uma viagem de trabalho para Abu Dhabi ensinou a Jamie Beck, uma fotógrafa de moda e blogueira, que vale a pena esperar para postar fotos no Instagram no período diurno para sua base de seguidores. Dessa forma, mais pessoas vão vê-los.

Em uma viagem recente ao redor do mundo para a lua-de-mel que incluía um safári na África do Sul, uma noite em Sydney, uma escapada para a ilha de Fiji e uma excursão do vinhos no vale de Napa, na Califórnia, ela guardou os posts para compartilhá-los mais tarde.

Na Game Reserve Londolozi, ela usou uma câmera profissional para registrar o acasalamento de leões e o iPhone para fazer algumas fotos para compartilhar nas redes sociais.Naquela noite, ela publicou suas fotos profissionais favoritas no Instagram, onde tem mais de 50.000 seguidores.

"Tinha que compartilhar", diz Beck. Quando você não está por perto, é legal quando as pessoas" ainda podem acompanhar o que você está criando". A imagem foi "curtida" por mais de 4.000 pessoas no Instagram.

Peter Sagal, apresentador de "Wait Wait… Don't Tell Me!", um popular programa humorístico de rádio nos EUA, diz que o Twitter é parte de sua personalidade pública, e que seus tweets para mais de 60.300 seguidores exigem que ele seja bastante engraçado ou interessante.

"Minha família já tem queixas suficientes de que minha mente está sempre em outro lugar", diz ele. "Se tenho algo divertido para dizer em 140 caracteres, eu tento dizer isso a eles." Fonte: The Wall Stret Journal.

20120729

Executivos nômades seguem as Olimpíadas

Jeremy Edwards teve seu momento olímpico por acaso. Este australiano de 49 anos é o administrador do Greenwich Park de Londres, que vai sediar as competições de pentatlo moderno e equestres dos Jogos Olímpicos deste verão europeu. Ele comanda uma equipe de cerca de 80 administradores que estarão encarregados de áreas que vão da limpeza e tratamento de resíduos a questões médicas e veterinárias.

Edwards vem trabalhando em todos os jogos desde a Olimpíada de Sydney, em 2000, e tudo começou com duas garrafas de vinho em um jantar na casa de um amigo. Um dos outros convidados naquela noite era um empreiteiro que estava trabalhando para o comitê organizador dos jogos em Sydney e sugeriu a Edwards que se candidatasse a um trabalho. "Tinha um emprego onde ficava das 9h às 17h e do qual já estava ficando cansado. Isso é bom para algumas pessoas, mas não para mim", diz.

Após uma entrevista, ele conseguiu um cargo de gerenciamento de logística e compras do centro equestre da Olimpíada de 2000, e diz que depois disso não olhou mais para trás. "Apaixonei-me pelo conceito, pela ideia de organizar uma festa para o mundo", afirma. Edwards descreve Londres como o "auge" de sua carreira. "Gosto da pressão e do tamanho do desafio", explica.

Esse executivo faz parte de uma raça de trabalhadores nômades que desenvolvem suas carreiras pulando de um grande evento esportivo para outro. Há quase 700 funcionários do comitê organizador da Olimpíada de Londres (Locog, na sigla em inglês) que já trabalharam em jogos anteriores, Copa do Mundo ou outros.

Eles prosperam com a intensidade e natureza única desses trabalhos, que têm data certa para começar e terminar e que exigem malabarismos com uma série de parceiros pouco convencionais- além da pressão pública para realizar algo que o mundo inteiro vai assistir e julgar.

Kristin Carpenter, uma canadense de 29 anos que ocupou uma função administrativa na Olimpíada de Inverno de Vancouver, há dois anos, hoje supervisiona as operações da Horse Guards Parade, lar das disputas de vôlei de praia. Ela atua no controle das vendas de ingressos, garante que a numeração das cadeiras será respeitada e coordena as agendas de treinamento dos atletas no local.

Ela foi procurada pelo comitê organizador da Olimpíada de Inverno de Vancouver em uma feira de empregos realizada na Universidade da Colúmbia Britânica. "Depois daquela conversa, mudei meu curso para administração esportiva e de lazer", diz. Após o término dos jogos, Kristin fez suas malas e saiu em busca de uma colocação na organização da Olimpíada de Londres. "Percebi que esse era o trabalho certo para mim. Decidi ir a Londres e esperar até que eles me contratassem", conta.

Para Paul Deighton, um ex-sócio do Goldman Sachs que saiu do banco para se tornar o principal executivo do comitê organizador da Olimpíada de Londres, o que motivou essa mudança foi a oportunidade de liderar "o maior acontecimento em minha cidade desde que estou vivo".

Mas, após 20 anos no setor privado, a função exigiu ajustes. Primeiro, Londres venceu a disputa para sediar os jogos quando a economia estava aquecida, e a crise financeira significou que ele teve de organizar o evento em tempos de grande austeridade. Isso colocou mais pressão sobre os gastos públicos e afetou boa parte das decisões. "Tudo está sendo muito mais difícil, pois o governo precisa resolver uma complicada agenda de políticas públicas que não se presta simplesmente a melhorar o resultado para o comitê", diz.

Deighton acrescenta que o intenso escrutínio público tem sido outro desafio. "A pressão para que tudo funcione perfeitamente é enorme. É um projeto incrivelmente complexo", diz. "Todo mundo está observando você trabalhar e muitas vezes as coisas não se encaixam nem funcionam naturalmente". Ao mesmo tempo, ele ficou "chocado" pelo ritmo lento da tomada de decisões. Enquanto em um banco tudo envolvia ideias sobre como ganhar mais dinheiro, em um projeto do setor público trata-se de gerenciar expectativas, com as preocupações políticas exercendo uma força maior.

Para Edwards, veterano de Olimpíadas, Londres 2012 trouxe dificuldades inesperadas. A mais notável foi ter de enfrentar as autoridades e os moradores locais, preocupados com danos ao parque com sua transformação em um local de eventos olímpicos. "Os outros espaços em que trabalhei foram basicamente pedaços de terra sem uso", explica. Por outro lado, em Londres "tivemos alguns grupos bastante barulhentos, que claramente não nos queriam aqui".

Ele diz, no entanto, que isso o ajudou a desenvolver habilidades valiosas como atender diferentes públicos e administrar demandas distintas. "Tem sido difícil, mas também uma grande experiência educacional para mim. Não me lembro de coisa parecida em Sydney", afirma.

Luca Baracchi, um italiano de 33 anos cuja primeira experiência com uma Olimpíada foi o trabalho voluntário nos jogos de Atenas, em 2004, é um gerente de protocolo em locais de eventos para Londres 2012. Seu trabalho é garantir que as cerimônias do Comitê Olímpico Internacional para a entrega de medalhas aconteçam com tranquilidade e que as pessoas certas estarão nos lugares certos e na hora certa.

Baracchi admite que "não se trata de um emprego comum", mas assim como Edwards, isso foi o que mais o atraiu. Depois de Atenas, ele deixou um emprego burocrático e estável na Itália e foi participar da organização dos Jogos de Inverno de Turim, em 2006. Ele diz que a experiência de lidar com diferentes culturas o ajudou a conseguir um emprego agora em Londres.

Para Baracchi, o lado ruim de ser um nômade olímpico é o fato de ter de passar por uma nova série de entrevistas de emprego toda vez que ele se candidata a trabalhar na organização de novos jogos. Talvez o maior desafio para muitos desses trabalhadores seja descobrir o que fazer em seguida.

Deighton, porém, diz que a natureza exigente da função que está exercendo na Olimpíada de Londres não lhe dá nem mesmo a oportunidade de pensar em qual será seu próximo emprego. Os nômades têm uma ideia mais clara do que acontece em seguida. "Tenho certeza de que participarei de pelo menos mais uma Olimpíada", afirma Carpenter. "Não existe um ponto mais alto nessa carreira", ressalta.

Edwards, por sua vez, já pensa em desistir da organização central. "Não faria isso de novo se fosse convidado, mas gostaria de trabalhar em um comitê organizador como consultor. Seria uma boa oportunidade para aprender algo novo", revela. Enquanto isso, a tarefa de Baracchi após o fim dos Jogos Paraolímpicos, em setembro, será mais pessoal. "A primeira coisa que vou organizar quando tudo isso passar será a minha própria lua-de-mel." Fonte Jornal Valor e Financial Times -  (Tradução de Mario Zamarian)

Narciso Machado

NCM Business Intelligence







Executivos nômades seguem as Olimpíadas