20120714

E-books ajudam editoras a entender hábitos do leitor.

O leitor típico leva apenas sete horas para ler o último livro da trilogia "Jogos Vorazes" no leitor digital Kobo — cerca de 57 páginas por hora. Quase 18.000 leitores que usaram o Kindle, da Amazon.com, marcaram a seguinte frase do segundo tomo da série de Suzanne Collins: "Porque, às vezes, acontecem coisas com as pessoas com as quais elas não estão preparadas para lidar". Já no Nook, o leitor digital da Barnes & Noble, a maior rede americana de livrarias, a primeira coisa que a maioria dos leitores faz ao terminar o primeiro volume da trilogia é baixar o segundo.

Antigamente, nem editora nem autor tinham como saber o que acontece quando um leitor senta para ler um livro. Desiste depois de três páginas? Ou termina o livro em uma sentada? A maioria pula a introdução? Ou a lê com interesse, sublinhando trechos e fazendo anotações nas margens?

Isso mudou. O livro eletrônico — o "e-book" — abriu uma janela para a história por trás das cifras de vendas, revelando não só quanta gente compra um determinado livro, mas com que intensidade a obra foi lida.

Durante séculos, a leitura foi, basicamente, um ato solitário e privado, uma troca íntima entre o leitor e as palavras impressas no papel. Mas a popularização do livro digital provocou uma profunda mudança na modo como se lê, transformando a atividade em algo mensurável — e de caráter quase público.

Os principais nomes no setor de e-books — Amazon, Apple e Google — podem facilmente saber o quanto um leitor já avançou no livro, quanto tempo dedica à leitura e que palavras usou na pesquisa para encontrar a obra. Aplicativos de leitura para tablets como iPad, Kindle Fire e Nook registram quantas vezes o leitor abre o aplicativo e quanto tempo passa lendo. Varejistas, e certas editoras, começam agora a digerir esses dados, que renderão uma visão sem precedentes da relação do público com livros.

O meio editorial sempre perdeu para o resto da indústria de entretenimento na hora de determinar gostos e hábitos do consumidor. Na televisão, produtores testam incessantemente novos programas em grupos de discussão; estúdios de cinema submetem filmes a uma bateria de testes e alteram o produto final com base na reação do público. Já no mundo editorial, a satisfação do leitor até aqui era avaliada com dados de vendas e resenhas — o que dá uma medida "post mortem" do êxito, mas não ajuda a influenciar ou a prever o sucesso. Isso começa a mudar à medida que editoras e livreiros vasculham a montanha de dados a seu dispor e que mais firmas tecnológicas entram no negócio.

A Barnes & Noble, dona do leitor digital Nook e de 25% a 30% do mercado de livros eletrônicos nos Estados Unidos, começou há pouco a estudar os hábitos de leitura digital do público. Dados colhidos via Nook revelam, por exemplo, até onde o leitor chega em um determinado livro e qual a relação de leitores deste ou daquele gênero com o livro. Jim Hilt, diretor de e-books da empresa, diz que a Barnes & Noble já começa a dividir suas descobertas com editoras para ajudá-las a criar livros que prendam mais a atenção das pessoas.

Para a empresa, que busca uma fatia ainda maior do mercado eletrônico, há muito em jogo. No último ano fiscal, as vendas do Nook subiram 45% e a de livros digitais para o aparelho, 119%. No todo, a Barnes & Nobble faturou US$ 1,3 bilhão com Nooks e e-books, em comparação com US$ 880 milhões no ano anterior. A Microsoft há pouco pagou US$ 300 milhões por uma fatia de 17,6% do Nook.

Hilt, diz que a empresa ainda está "nos estágios iniciais de um profundo [processo] de análise" e está vasculhando "mais dados do que poderia usar". Mas toda essa informação — reunida por grupos de leitores, não individualmente — já rendeu dados úteis. Algumas simplesmente confirmam o que o varejo já sabia só de examinar listas de best-sellers. Um exemplo: quem usa o Nook para ler o primeiro livro de uma série infanto-juvenil popular como a "Divergente", da escritora Veronica Roth (que a Rocco lança no Brasil em novembro), tende a emendar a leitura de um tomo com a do seguinte, quase como se estivesse lendo um único romance.

Graças à análise de dados gerados pelo Nook, a Barnes & Noble já descobriu que se o livro é de não ficção a leitura tende a ser intermitente, que um romance costuma ser lido de uma só vez e que livros de não ficção tendem a ser abandonados antes. Fãs de ficção científica, romances populares e policiais costumam ler mais obras, e mais depressa, do que leitores de ficção literária.

São revelações que já estão influenciando o tipo de obra que a Barnes & Noble vende no Nook. Hilt diz que quando os dados mostraram que o leitor volta e meia não chega ao fim de longas obras de não ficção, a empresa buscou maneiras de envolver mais o leitor de não ficção e longos ensaios jornalísticos. Daí veio a ideia de lançar a coleção "Nook Snaps", com obras curtas sobre temas variados como religião e o movimento Ocupe Wall Street.

Saber exatamente em que ponto o leitor se cansa também poderia ajudar editoras a criar edições digitais com mais firulas — um vídeo, um link ou algum outro recurso multimídia, diz Hilt. Daria para saber, por exemplo, que o interesse em uma série de ficção está caindo se leitores que compraram e devoraram os dois primeiros volumes de repente perdem o pique para ler novos tomos da série, ou simplesmente desistam.

"A maior tendência que estamos tentando descobrir é em que ponto ocorre esse abandono com determinados tipos de livro e o que daria para fazer com as editoras para evitá-lo", explica Hilt. "Se pudermos ajudar escritores a criar livros ainda melhores do que hoje, todo mundo ganha".

Tem escritor que adora a ideia. O romancista Scott Turow diz que sempre achou frustrante a incapacidade do setor de estudar a base de clientes. "Quando reclamei a um dos meus editores que, depois de tanto tempo publicando, ele ainda não sabia quem comprava meus livros, ele respondeu: 'E aí? Ninguém no meio editorial sabe.'". Turow, que é presidente da associação dos escritores dos EUA, a Authors Guild, acrescenta: "Se der para saber que um livro é longo demais e que é preciso ser mais rigoroso no corte, eu, pessoalmente, adoraria ter essa informação".

Outros temem que esse apego a dados acabe impedindo o escritor de assumir o risco da criação — risco que produz a grande literatura. Um livro "pode ser excêntrico, do tamanho que tiver de ser e, nesse quesito, o leitor não devia meter o bedelho", diz Jonathan Galassi, diretor de operações da editora Farrar, Straus & Giroux. "Não vamos encurtar 'Guerra e Paz' só porque alguém não conseguiu chegar ao fim".

A Amazon, em particular, tem uma vantagem na arena: por ser, ao mesmo tempo, varejista e editora, tem condições únicas de usar dados que coleta sobre os hábitos de leitura de clientes. Não é segredo que a Amazon e outras lojas de livros digitais coletam e guardam informações sobre o consumidor — que livros comprou, que livros leu. Usuários do Kindle assinam um termo que autoriza a empresa a armazenar dados gerados pelo aparelho — incluindo a última página lida pelo usuário, além de seus marcadores, observações e anotações — em servidores da empresa.

A Amazon consegue saber que trechos de livros digitais são populares com o público leitor — e exibe parte dessa informação publicamente em seu site.
"Vemos isso como a inteligência coletiva de todas as pessoas que leem pelo Kindle", diz Kinley Pearsall, porta-voz da Amazon.

Certos defensores da privacidade acham que quem lê um livro eletrônico devia ter a garantia de que seus hábitos de leitura digitais não serão registrados. "Há um ideal na sociedade de que o que alguém lê não é da conta de ninguém", diz Cindy Cohn, diretora jurídica da Electronic Frontier Foundation, uma ONG que defende direitos e a privacidade do consumidor. "Hoje, não há nenhuma maneira de dizer à Amazon que eu quero comprar um livro [no site], mas não quero que xeretem o que estou lendo".

A Amazon não quis comentar a análise e o uso que faz de dados coletados via Kindle.
A migração para o livro digital deflagrou uma verdadeira corrida entre novas empresas de tecnologia interessadas em faturar com a montanha de dados reunida por leitores digitais e aplicativos de leitura. A Kobo, que fabrica leitores, tem um serviço que armazena 2,5 milhões de livros e conta com mais de oito milhões de usuários, verifica quantas horas os leitores dedicam a este ou àquele título e até onde avançam na leitura.

Certas editoras já estão começando a testar digitalmente livros antes de lançar a versão impressa. Mas poucas foram tão longe quanto a Coliloquy. A editora digital, que vende pelo Kindle, pelo Nook e em leitores com sistema Android, tem um formato — o "escolha sua própria aventura" — que permite ao leitor alterar personagens e tramas. Engenheiros da empresa consolidam os dados obtidos de seleções feitas por leitores e mandam o resultado para o autor, que pode ajustar a trama dos próximos livros para refletir a opinião do público.

"Queríamos criar um mecanismo de feedback que até então não existia entre escritor e leitor", diz Waynn Lue, engenheiro da computação que é um dos fundadores da Coliloquy. Fonte: The Wall Street Journal

Narciso Machado

NCM Business Intelligence

E-books ajudam editoras a entender hábitos do leitor.

Empresas leem retinas para entender gostos do consumidor

Fabricantes de bens de consumo estão apostando em novas tecnologias para superar o maior obstáculo na hora de descobrir a verdadeira opinião do consumidor: aquilo que a pessoa diz.

É que o consumidor não é uma fonte muito confiável de informações sobre aquilo que ele mesmo quer. Estudos acadêmicos revelam que participantes de grupos de discussão, por exemplo, buscam agradar quem está aplicando o teste e superestimam o próprio interesse no produto testado. Com isso, fica difícil saber o que vai emplacar ou não. Para a indústria de bens de consumo, é crucial acertar a mão nesses testes, pois fabricantes despacham grandes volumes de produtos ao mercado e não têm contato direto com o consumidor.

Para descobrir o que realmente atrai a atenção do público em um teste de mercado, empresas como Procter & Gamble Co., Unilever PLC e Kimberly-Clark Corp. estão combinando simulações tridimensionais computadorizadas de protótipos de produtos e gôndolas de varejo com a tecnologia de "eye-tracking" , que monitora a movimentação e a fixação do olhar. Isso, por sua vez, está ajudando a lançarem novidades mais depressa e a criar produtos e gôndolas que aumentam as vendas.

Em 2009, pesquisadores da Kimberly-Clark usaram computadores com câmeras de monitoramento da retina para testar a nova embalagem de toalhas de papel, diz Kim Greenwood, gerente da equipe de realidade virtual da empresa. A meta era descobrir que versões da embalagem atraíam o olhar do consumidor nos primeiros dez segundos diante da gôndola — intervalo crucial no qual o produto é reconhecido e colocado no carrinho. E também saber se essa preferência se mantinha independentemente do total de rolos na embalagem.

Ao monitorar a reação de consumidores a várias versões, a Kimberly-Clark descobriu o que atraía a atenção da pessoa, o ponto mais comum de partida e o caminho que o olhar percorria na embalagem. "A combinação desses fatores nos ajudou a optar por um desenho em forma de onda, disse Greenwood.

Pesquisadores vêm observando o movimento dos olhos do consumidor para tentar descobrir o que a pessoa acha do produto desde o começo do século 20. Como a tecnologia melhorou muito nos últimos anos, agora já dá para monitorar a retina para saber exatamente em que ponto o olhar se fixa, por quanto tempo e quantas vezes. Essa informação já serviu para derrubar mitos sobre o que realmente importa no design.

Um deles diz respeito ao tamanho da imagem usada para ilustrar uma embalagem. Certas empresas acham que quanto maior, melhor, diz Michel Wedel, professor de ciência do consumo na faculdade de administração da Universidade de Maryland, nos EUA. Segundo Wedel, estudos com monitoramento da retina mostram que o olho processa imagens com tanta rapidez que nem sempre o tamanho importa.

Com o custo dessa tecnologia óptica caindo, seu uso está se popularizando. Uma câmera de rastreamento de retina incorporada a um computador e a óculos especiais pode custar até US$ 40.000, diz Wedel. A informação que coleta pode ser usada para formar um "mapa de calor" que usa cores para mostrar onde as pessoas olham em uma prateleira simulada.

E tem empresa que vai além: monitora a atividade cerebral de participantes de testes para descobrir que imagens geram reações de prazer, diz David Johnston, diretor da JDA Software Group Inc. Outra técnica existente registra expressões faciais involuntárias para captar a verdadeira reação emocional.

Quando resolveu mudar o frasco do sabonete líquido Axe, a Unilever montou um cenário virtual em 3D e fez todo participante do teste colocar um óculos especial equipado com três esferas monitoradas por sensores que correspondiam a movimentos horizontais e verticais da pessoa dentro da cena virtual, diz Joanne Crudele , diretora mundial da Unilever para estudos técnicos sobre o consumidor na área de higiene pessoal.

Os resultados fizeram a empresa mudar o formato do frasco, que era curvilíneo. Agora é reto. A marca ganhou um X negro e fundo azul para ficar mais visível. A letra usada na descrição do produto agora é maior. Depois de usar o "eye-tracking" para testar a área de desodorante nas gôndolas, a Unilever sugeriu às lojas prateleiras inclinadas para que quando alguém retire um produto, o de trás venha para a frente — e para que a embalagem esteja sempre de frente para o consumidor. Numa varejista, as vendas de desodorantes subiram 3,5%.

"Com uma gôndola virtual, basta clicar no mouse para, em poucos segundos, mudar o produto, a embalagem, o display — e realmente cocriar com o consumidor, quase em tempo real", disse Crudele, da Unilever.

Bob McDonald, diretor-presidente da P&G, diz que a tecnologia também ajuda a cortar custos no projeto de produtos. Segundo ele, a maioria dos protótipos físicos custa mais de US$ 1.500. Agora, 80% dos novos produtos da empresa são desenvolvidos usando alguma técnica de modelagem virtual ou simulação.  Fonte: The Wall Street Journal

Narciso Machado

NCM Business Intelligence

Empresas leem retinas para entender gostos do consumidor

20120630

Quer que eu compre? Deixe-me em paz


Quando Mindy Chun compra produtos de beleza, às vezes ela quer falar com alguém — mas geralmente ela prefere que a deixem em paz.
"Eu não gosto de sentar numa cadeira", diz Chun sobre o ritual das lojas de departamento, onde os vendedores pedem aos clientes que se sentem para demonstrar e tentar vender-lhes os produtos.

Numa ida à loja Bloomingdale's, em Los Angeles, a blogueira de 32 anos encontrou produtos da Clinique expostos em prateleiras e gavetas abertas para que ela pudesse pegá-los e experimentá-los ela mesma. "Isso é um ambiente de baixa pressão", diz ela.

A Clinique, a maior marca de maquiagem e cuidados com a pele dos Estados Unidos, deu uma recauchutada nos seus espaços de venda em lojas de departamento, criando um ambiente onde os consumidores podem comprar sem ser incomodados e experimentar produtos novos sem a interferência de um vendedor.

Os vendedores treinados da Clinique ainda estão disponíveis para responder perguntas, mas os consumidores só precisam interagir com eles na hora de pagar.

"É o fim do 'Proibido tocar'", diz Anthony Battaglia, diretor mundial de design de loja e visual de merchandising da Clinique, que é parte da Estée Lauder Cos. "Nós temos que lembrar o consumidor de que nosso produto está aqui para ser experimentado."

Varejistas nos EUA chamam isso de ambiente de "venda aberta". A tendência decolou na Sephora, a rede de beleza cuja exposição de produtos e items para testes atraem muitos consumidores.

O rompimento com a venda de tradicional é uma mudança enorme para a Clinique, e possivelmente arriscada. Seduzir os clientes com uma conversa sobre os benefícios de um produto novo é especialmente crítico no setor de cuidados com a pele, onde os produtos tendem a ser semelhantes. E os vendedores são a maneira pela qual as empresas empurram aquele produto a mais, convencendo, por exemplo, uma mulher procurando por uma sombra de que ela também precisa de um delineador e talvez ainda de um sérum.
A Clinique informa que sua nova estratégia levou a um crescimento de dois dígitos nas vendas em muitas lojas.

Na nova abordagem da Clinique, os consumidores podem abrir gavetas e experimentar produtos sem pedir permissão. Usando um dos vários iPads instalados ao redor, eles podem fazer pesquisas para identificar problemas de pele e obter recomendações.

A Clinique adaptou o design das lojas de departamento ao redor do mundo. No Brasil, onde os produtos de maquiagem são os que mais vendem, eles ficam expostos em destaque. Em lugares como a China, onde as adolescentes tendem a sair para fazer compras em grupos, a empresa providencia para que haja sempre três cadeiras em frente de cada espelho. Fonte Mimi Ritzen Crawford para The Wall Street Journal.

Narciso Machado

NCM Business Intelligence
 
Quer que eu compre? Deixe-me em paz

20120621

Siderúrgicas cortam custos e produção para sobreviver


A indústria do aço enfrenta seu pior cenário em quatro anos, com uma queda de preços e de demanda levando seus executivos a querer cortar custos e fechar siderúrgicas deficitárias.

As perspectivas sombrias refletem em grande parte a crise da Europa e o desaquecimento do setor de construção na China. Elas contrastam bastante com a situação um ano atrás, quando, fortalecidos pelas indústrias de automóvel e energia, os fabricantes de aço podiam impor aumento de preços e elevar a produção. Aquele momento representou a primeira esperança real de recuperação da crise financeira de 2008, que já havia corroído severamente os lucros.

Lakshmi Mittal, diretor-presidente da ArcelorMittal, a maior companhia de aço do mundo, disse que a indústria não tem como impulsionar a demanda, o que torna "crucial" para os produtores reduzir custos e o fornecimento. "Este não é um cenário animador", disse Mittal na terça-feira a respeito da economia mundial, durante a conferência anual Estratégias de Sucesso para o Aço. "Quando a economia está em dificuldades, é muito natural que o aço sofra um impacto."

Produtores de aço estão fechando fábricas em todo o mundo, de forma temporária ou permanente. No mês passado, a americana RG Steel LLC pediu concordata e fechou uma fábrica de grande porte em Sparrows Point, no Estado de Maryland, e duas outras plantas, eliminando mais de 4.000 empregos. A alemã ThyssenKrupp AG está tentando vender o seu enorme complexo siderúrgico no Alabama, que vem dando prejuízo. A ArcelorMittal fechou uma fábrica na Bélgica no ano passado e está desativando outras duas.

Os preços caíram 12% desde fevereiro, de US$ 827 para US$ 723 a tonelada para o aço padrão laminado a quente, e deve cair abaixo dos US$ 700 a tonelada no terceiro trimestre, segundo a firma de pesquisas do setor World Steel Dynamics. A utilização de capacidade — o volume produzido comparado com a capacidade total de produção — caiu de 80% para 76%. Alguns analistas disseram que é necessário cortar mais a produção para manter os preços firmes. "Pelo menos 100 milhões de toneladas de capacidade mundial de produção de aço", — cerca de 6,5% da produção mundial — precisam ser eliminadas para segurar os preços, disse John Lichtenstein, diretor-gerente da firma de consultoria Accenture.

A nova conjuntura se reflete na cotação das ações das fabricantes de aço. A ação da U.S. Corp. caiu de um valor acima de US$ 31 três meses atrás para US$ 20,15. Já as da ArcelorMittal, negociadas na Bolsa de Nova York, baixaram de mais de US$ 21 para US$ 15,56 durante o mesmo período.

A siderurgia brasileira também está sofrendo com a situação. As produtoras de aço do Brasil têm baixado preços para concorrer no exterior, enquanto a redução do crescimento doméstico tem enfraquecido a demanda no país — e tudo isso tem pesado sobre as cotações do setor em bolsa.

A esperança de que a demanda do aço continuaria a crescer levou a uma produção mundial recorde de 1,5 bilhão de toneladas no ano passado, enquanto a demanda real chegou só a 1,36 bilhão de toneladas, segundo a Associação Mundial do Aço.

A Europa e a China são as duas maiores incertezas da indústria. Na Europa, a crise de dívida sugou dinheiro do orçamento de infraestrutura pública e matou o apetite por empréstimos para projetos de construção.

"A demanda na Europa caiu de 200 milhões de toneladas por ano para 150 milhões de toneladas, e terá dificuldade para se recuperar", disse Mittal.

A China, onde a demanda forte sustentou em grande parte a indústria mundial, está perdendo fôlego. Luke Folta, um analista do banco de investimento Jefferies & Co., diminuiu sua previsão para o crescimento do consumo de aço na China este ano de 8,5% para 7,5%. Um crescimento menor do consumo na China implica que os produtores de aço do mundo procurarão outros mercados. Implica, também, que os produtores chineses vão depender cada vez mais de exportações.

As importações dos Estados Unidos, que se beneficiaram de uma demanda relativamente forte dos setores de automóveis e manufatura, cresceram18,8% nos primeiros quatro meses deste ano, segundo dados da firma Global Trade Information Services. Os líderes da indústria americana já disseram que estão preparados para entrar com uma queixa comercial se as importações continuarem nesse ritmo. A Rússia, a Turquia e a China são considerados os principais alvos de possíveis queixas comerciais, dizem executivos do setor.
Por outro lado, os setores gêmeos de automóveis e combustíveis continuam brilhando nos EUA.
André Gerdau Johannpeter, diretor-presidente da Gerdau Group, de Porto Alegre, RS, disse que o mercado automotivo dos EUA está se recuperando. É importante "separar o que é uma crise [na Europa] e o que é uma desaceleração", disse o executivo, referindo-se ao crescimento da demanda fora da Europa.  Fonte: Stephen Voss para The Wall Street Journal



Siderúrgicas cortam custos e produção para sobreviver

20120527

Será que as empresas são tão inovadoras quanto dizem?

Rolos gigantes de plástico bolha numa fábrica da Sealed Air. O diretor-presidente da empresa diz que inovação de verdade significa inventar um produto que nunca existiu.

Na sua empresa há inovação? Praticamente todas diriam que sim.
O termo é usado a torto e a direito por empresas. É um modo de mostrar que estão na vanguarda, seja lá do que for: da tecnologia, da medicina, dos salgadinhos, dos cosméticos. É um tal de exibir diretores de inovação, equipes de inovação, estratégias de inovação. Há até "dia" da inovação.

Não significa, no entanto, que a empresa esteja realmente inovando em alguma coisa. Nada disso: embora o termo remeta a uma transformação monumental, o progresso sendo descrito volta e meia é bem ordinário.
Como outros motes popularíssimos no passado — "sinergia", "otimização" —, a inovação corre o risco de virar um clichê. Se é que já não virou.
"A maioria das empresas diz que é inovadora na esperança de levar o investidor a crer que há crescimento onde não há", diz Clayton Christensen, professor da Faculdade de Administração Harvard e autor de "O Dilema da Inovação", de 1997.
Uma busca em informes de resultados anuais e trimestrais apresentados à agência reguladora do mercado aberto nos Estados Unidos, a SEC, revela que empresas citaram alguma variação do termo "inovação" 33.528 vezes no ano passado, alta de 64% em relação a cinco anos antes.
Mais de 250 livros com o termo "innovation" no título foram lançados nos últimos três meses — a maioria na seção de administração, segundo pesquisa na Amazon.com.
A definição do termo varia muito dependendo de quem estiver respondendo. Para Bill Hickey, diretor-presidente da Sealed Air Corp., significa inventar algo que não existia antes, como o plástico-bolha da empresa.
Para o presidente da Ocean Spray Cranberries Inc., Randy Papadellis, significa transformar um artigo como a casca de uma fruta — no caso, cranberry, ou mirtilo —, que antes ia para o lixo, numa guloseima, como os doces Craisins.
Para o diretor de pesquisa e desenvolvimento da Pfizer Inc., Mikael Dolsten, é pegar um produto que já existe e aplicá-lo a outro público, como uma vacina para bebês que também se prova eficaz em idosos.
Scott Berkun, autor de "Mitos da Inovação" — um livro de 2007 que alerta para a diluição do termo —, diz que o que a maioria das pessoas chama de inovação não passa, na verdade, de um "produto muito bom".
Berkun prefere reservar a palavra a inventos capazes de transformar uma civilização —como a eletricidade, a imprensa, o telefone e, mais recentemente, talvez o iPhone.
Hoje consultor de inovação, Berkun aconselha clientes a banir a palavra da empresa.
"É uma palavra camaleônica [usada] para ocultar a falta de substância", diz.

Para Berkun, a popularização do termo inovação remonta à década de 1990, época da bolha da internet e do lançamento de Dominando a Dinâmica da Inovação, de James M. Utterback, e do livro de Christensen.
O termo seduz empresas estabelecidas por conotar algo ágil e bacana, como seriam uma empresa nova e seus criadores, explica.
Nem sempre empresas de tecnologia são as que mais abusam do termo. A Apple Inc. e a Google Inc. usaram a palavra inovação 22 vezes e 14 vezes, respectivamente, nos últimos relatórios anuais. Junto com elas vieram Procter & Gamble Co. (22 vezes), Scotts Miracle-Gro Co. (21) e Campbell Soup Co. (18).
A febre da inovação fez nascer toda uma indústria de consultoria. Empresas do ranking das cem maiores da revista "Fortune" pagam a consultores de inovação entre US$ 300.000 e US$ 1 milhão para a colaboração em um único projeto, o que pode chegar a US$ 1 milhão e US$ 10 milhões ao ano, estima Alex Kandybin, consultor de estratégia de inovação da Booz & Co.

Além disso, quatro de cada dez executivos dizem que sua empresa hoje tem um diretor de inovação, de acordo com um estudo recente do fenômeno divulgado no mês passado pela consultoria Capgemini.
Os resultados, baseados numa sondagem pela internet de 260 executivos do mundo todo, além de 25 entrevistas mais detalhadas, sugerem que o título pode ser mera "propaganda".

A maioria dos executivos admitiu que sua empresa ainda não tem uma estratégia de inovação clara para respaldar o posto.
Jeff Semenchuk, que em agosto virou o primeiro diretor de inovação da Hyatt Hotels Corp., diz que seu cargo não tem nada de "enrolação".
A cadeia de hotéis fez uma sondagem recente com centenas de hóspedes e concluiu que "estamos todos basicamente presos ao passado", diz ele em alusão ao setor.
Semenchuk dirige iniciativas experimentais em oito hotéis recentemente destacados como "laboratórios" no mundo todo. Entre os projetos: um processo no qual um recepcionista com um iPad em punho vai ao aeroporto receber o hóspede e dar início ao seu registro.
A palavra inovação de nova não tem nada. O primeiro registro do termo, que vem do latim "innovatus" (renovação, mudança), em um documento impresso data do século 15, diz Robert Leonard, presidente do programa de linguística de Universidade Hofstra, nos EUA.
Com a aceleração do ciclo de produtos em empresas, a palavra passou a significar não só fazer algo novo, mas fazê-lo com mais rapidez, diz ele.

A fabricante de sopas enlatadas Campbell, por exemplo, diz que está tentando levar novidades — novos sabores de sopa, novos molhos — ao mercado mais depressa do que as concorrentes. "Hoje em dia, uma ideia pode ser imitada com muito mais rapidez", diz o vice-presidente e gerente-geral da empresa, Darren Serrao.

Para Christensen, há três tipos de inovação: a inovação na eficiência, pela qual o mesmo produto é feito a um custo menor, como a automatização da consulta ao cadastro de crédito de alguém; a inovação sustentadora, que converte um produto já bom em algo ainda melhor, como o carro híbrido; e a inovação de ruptura, que transforma coisas caras e complexas em algo simples e mais acessível, como a migração do mainframe para o microcomputador.
Para a empresa, o maior potencial de crescimento reside na inovação de ruptura, diz. Christensen observa que as demais modalidades poderiam muito bem ser chamadas de progresso comum — e normalmente não criam mais empregos nem negócios.
Como a inovação de ruptura pode levar de cinco a oito anos para dar frutos, diz ele, muita empresa perde a paciência.

Para a empresa é bem mais fácil, acrescenta o autor, apenas dizer que está inovando. "Todo mundo está inovando, pois qualquer mudança virou inovação".
Usuários inveterados admitem que já estão cansando do termo inovação.
Hickey, da Sealed Air, diz que a empresa vem usando o termo em informes ao mercado pelo menos desde a década de 1980. E que está considerando suspender seu uso.
E o que entraria no lugar? "Inventivo".
"Inventivo é estado de espírito; inovação é uma coisa", explica. "Vamos abrir caminho".
Fonte The Wall Street Journal - (Colaborou Melissa Korn.)

Será que as empresas são tão inovadoras quanto dizem?

Narciso Machado

NCM Business Intelligence

20120501

Na nova ordem mundial, a palavra-chave é flexibilidade

Em março, o governo de Mianmar – uma junta militar paranóica, há tempos destituída e isolada, que atua num enclave fortificado no meio da selva – anunciou que permitiria eleições locais genuinamente livres pela primeira vez em mais de 20 anos. Em abril, os generais mantiveram a palavra, a oposição obteve uma grande vitória e os governos ocidentais rapidamente começaram a agir para afrouxar as sanções comerciais contra o país.

O que inspirou essa radical mudança de posição? Mianmar está emergindo do gelo para garantir alternativas. O país quer diminuir sua crescente dependência da China. A exemplo de um número crescente de países desenvolvidos e em desenvolvimento, Mianmar reconhece a urgente necessidade de firmar laços mais abrangentes de comércio e na área de segurança.

Entramos em algo que gosto de chamar de mundo "G-Zero": um mundo no qual nenhuma nação sozinha (nem mesmo os EUA) ou aliança de governos (certamente não o G-7 ou o G-20) possui uma musculatura política e ecônomia capaz de ditar a agenda internacional. Nesta nova ordem mundial descentralizada, crescimento não basta. Um país também tem de ter resiliência — o poder de variar, ou, em inglês, de "pivot".

Que países estão melhor posicionados para variar nessa emergente nova ordem mundial?

O Brasil, que recentemente superou o Reino Unido como a sexta maior economia do mundo, tem várias vantagens promissioras. Com uma classe média de mais de 100 milhões de pessoas, abriga o maior mercado consumidor da América Latina. Seu governo, liderado por um partido de esquerda, estabeleceu um consenso nacional em favor do mercado — e políticas econômicas amigáveis ao investidor. Apesar de as grandes reservas de petróleo em águas profundas, descobertas em 2007, provavelmente garantirem que o país se tornará líder na exportação de energia, sua economia é bem diversificada.

Mas há outro fator crucial que fortalece a resiliência do Brasil: seu governo e suas principais empresas desenvolveram fortes laços com vários parceiros robustos. Por 80 anos, o Brasil olhou primeiro para os EUA. Durante a década passada, porém, suas importações da China cresceram 12 vezes e as exportações saltaram 18 vezes. No início de 2009, o comércio com a China superou o comércio com os EUA, ajudando o país a navegar a recente desaceleração americana sem grandes problemas.

A discussão da integração da Turquia na União Europeia não está levando a lugar algum, mas Ancara está ativamente expandindo sua influência internacional. A entrada na Organização do Tratado do Atlântico Norte deu voz à Turquia na Europa e influência em Washington. É um mercado emergente que ganha importância, com renda per capita que é quase o dobro da da China e quatro vezes a da Índia. Muitos no mundo árabe olham para a Turquia como um Estado muçulmano moderno e dinâmico. Adicione a isso sua posição no meio da Europa, Ásia, Oriente Médio e da ex-União Soviética, e a Turquia é um modelo de um importante Estado pivô moderno.

A África se tornou um continente que tem essa agilidade. Entre 2000 e 2010, seu produto interno bruto real cresceu 4,7% ao ano, e os africanos agora gastam mais em produtos e serviços que os indianos, uma população de porte semelhante. Investimentos diretos estrangeiros na África mais que quintuplicaram desde 2000.

Durante anos, os Estados Africanos descapitalizados tinham de voltar-se quase que exclusivamente para o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e governos do Ocidente em busca de ajuda financeira. Em muitos casos, aceitaram ajuda do Ocidente com profunda relutância, porque ela frequentemente vinha atrelada a exigências de reformas democráricas e mais abertura para investimentos ocidentais. Mas, só em 2010, o comércio da China com a África cresceu mais de 43%, de acordo com dados oficiais chineses, e o país substituiu os EUA como maior parceiro comercial da África.

A África pode agora esperar que multinacionais e companhias estatais de países desenvolvidos e em desenvolvimento briguem para ter acesso aos consumidores africanos, assim como termos mais favoráveis de investimento. Esta não é a história de uma derrota do Ocidente para a China, porque ambos continuarão lucrando na África. Os vencedores aqui são todos os novos resilientes governos africanos.

A Ásia abriga vários Estados pivôs. A Indonésia, com a quarta maior população mundial, goza de um ambiente político estável, com crescimento sólido e uma economia bem diversificada. Seus laços comerciais são bem balanceados entre a China, os EUA, o Japão e Cingapura — e devem continuar assim. O Vietnã recebe a maior parte de sua ajuda do Japão, suas armas da Rússia e seu maquinário (e turistas) da China, e seu principal mercado exportador são os EUA.

A pequena Cingapura prova que o tamanho de um país não limita suas alternativas internacionais. A ilha que é uma cidade-Estado localiza-se estrategicamente na embocadura do vital Estreito de Malaca. Seu PIB per capita está entre os mais altos do mundo. O desemprego ronda na faixa dos 2%. O governo de Cingapura tem trabalhado para conciliar a cultura oriental e as práticas de negócios ocidentais, e o país é agora o quarto maior centro financeiro o mundo, atrás de Londres, Nova York e Hong Kong. Muitas empresas estrangeiras interessadas em estabelecer negócios na Ásia buscam uma base que permita que tenham acesso a todas as fortes economias da região sem uma concentração excessiva em nenhuma delas, e Cingapura tem esse perfil.

Encravado entre a Rússia e a China, o Cazaquistão já está lucrando com sua posição de Estado capaz de variar. Ele tem uma das economias que crescem mais rapidamente no mundo, graças principalmente às exportações em larga escala de petróleo, metais e grãos, que ajudam a garantir que o país não dependa tão fortemente do comércio com a Rússia, seu vizinho na ex-União Soviética, ou da China. Almaty, a maior cidade do país, tornou-se um importante centro financeiro regional. Apesar de o Cazaquistão integrar a Organização de Cooperação de Xangai (em inglês, "Shanghai Cooperation Organization"), um pacto de segurança que inclui Rússia e China, seu maior parceiro comercial é a União Europeia.

Nem todos os Estados nessa categoria são mercados emergentes. O Canadá permanece vulnerável à desaceleração dos Unidos Unidos, apesar de hoje não ser mais tão vulnerável como costumava ser — e não está tão exposto quanto o México. As exportações do Canadá para países que não os EUA saltaram de 18% em 2005 para mais de 25% apenas quatro anos depois, e o Canadá agora tem cerca de 40% das suas importações vindas de outros países que não os EUA.

Além disso, a economia do Canadá é bem diversificada. Como o México, o país exporta grande volume de petróleo. Mas também produz uma quantidade substancial de gás natural, máquinas industriais, autopeças e madeira e vende esses produtos para vários mercados consumidores diferentes. A principal fonte de moeda estrangeira do México vem da venda de petróleo, turismo e das remessas dos mexicanos que vivem no exterior. Em todos os três casos, a vasta maioria dos recursos vem dos EUA. O fato é que sua economia está estreitamente ligada à saúde do seu gigante vizinho.

Nos próximos anos, esqueça os tão discutidos grupos artificais como os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e os chamados "Next 11" , o rol de potenciais usinas de força que inclui a Turquia e a Coreia do Sul, mas também barris de pólvora políticos como o Paquistão, a Nigéria e o Irã.

No nosso mundo emergente G-Zero, sem um único poder capaz de determinar a agenda, os vencedores e os perdedores da próxima geração serão determinados não pela rubrica do momento mas por como e com qual frequência eles serão capazes de atuar como pivôs.

Mr. Bremmer é presidente da Eurasia Group, empresa de pesquisa e consultoria em risco político global. Seu artigo é adaptado do seu novo livro "Every Nation for Itself: Winners and Losers in a G-Zero World", (em tradução livre, "Cada Nação por Conta Própria: Vencedores e Perdedores em um Mundo G-Zero"). Fonte The Wall Street  Journal
Narciso Machado

NCM Business INtelligence

Na nova ordem mundial, a palavra-chave é flexibilidade

Os truques da Sotheby's para vender 'O Grito'

A figura no centro da pintura "O Grito", de Edvard Munch, já foi chamada de muitas coisas: feto, verme, girino, caveira. Já foi apelidada de "retrato da alma" e "rosto que lançou 1.000 terapeutas".

Agora, pela primeira vez na história, ela se tornou algo mais: a celebridade de um leilão.

"O Grito" será leiloado na Sotheby's nesta quarta-feira em Nova York. Especialistas da Sotheby's acreditam que o preço deve chegar a US$ 80 milhões, a cifra de pré-venda mais alta que a casa de leilões já estimou.

A aparição andrógina que aperta suas faces em agonia perto de um fiorde de Oslo, pintada pelo artista norueguês em 1895, é um troféu inusitado e com poucos precedentes, famoso tanto pelas referências e paródias na cultura pop quanto por suas virtudes artísticas. Das quatro versões de "O Grito" que Munch pintou, esta é a única que não está num museu de Oslo e a primeira a ser leiloada. A Sotheby's está apostando alto com a pintura: ela pode receber os louros de leiloar um dos quadros mais caros da história, ou dar um vexame se a expectativa se provar alta demais.

Numa decisão rara, a Sotheby's enviou o quadro para casas particulares na Ásia, na América do Norte e na Europa para que importantes clientes pudessem verificar se a imagem assustadora destoava do resto de suas coleções de arte. O quadro foi retirado da moldura para certos interessados de peso, que queriam encarar o ícone face a face. A pintura até viajou há pouco tempo para Hong Kong, onde passou 48 horas para que um grande colecionador pudesse inspecionar a obra pessoalmente, numa sala reservada nos escritórios da Sotheby's.

Entre os possíveis compradores estão executivos europeus, ricaços asiáticos e xeiques do Oriente Médio. Entre os nomes mencionados mais frequentemente está o da família real do Catar, que está construindo um império de museus e, segundo relatos, teria há pouco tempo comprado "Os Jogadores de Cartas", de Paul Cézanne, por mais de US$ 250 milhões. Simon Shaw, diretor do departamento de arte moderna e impressionista da Sotheby's em Nova York, notou a fascinação do Japão com o quadro, que tem um sentido especial para o país, possivelmente porque Munch foi influenciado pelas gravuras japonesas.

O especialista da Sotheby's Philip Hook calcula que existam cerca de dez colecionadores capazes de comprar o quadro. Sua teoria pessoal é que um colecionador geralmente não gasta mais de 1% do seu patrimônio numa só obra de arte. Isso limita os interessados em "O Grito" às pessoas que têm US$ 8 bilhões ou mais.

Os rumores sobre possíveis compradores incluíram colecionadores internacionais que já conseguiram conquistar obras-primas antes, como a bilionária brasileira Lily Safra, que mora em Genebra e pagou US$ 104,3 milhões pela escultura "O Homem Caminhando I", de Alberto Giacometti, ou o executivo americano dos cosméticos Ronald Lauder, que desembolsou US$ 135 milhões numa compra particular do "Retrato de Adele Bloch-Bauer I", de Gustav Klimt, para seu museu de Nova York. Em vez de numerosos aficionados de Munch, pessoas do mundo da arte acham que uma obra cobiçada como "O Grito" deveria atrair mais o interesse de colecionadores com gostos diversos para quadros famosos, lista que inclui o industrial russo Roman Abramovich e o herdeiro grego do transporte marítimo Philip Niarchos. Representantes desses colecionadores não quiseram comentar.

Este mês, mais de 7.500 pessoas puderam ver o quadro durante cinco dias na Sotheby's de Londres. A obra foi protegida por um vidro, a mais de dois metros de um cordão de isolamento vigiado por seguranças.

Grandes clientes viram o quadro numa sala privativa da Sotheby's em Nova York, sentados em cadeiras de espaldar alto a pouca distância da obra, numa sala trancada. "Um dos maiores colecionadores do mundo disse: 'Eu poderia vender todos os meus quadros, pôr este na minha parede, pôr minha poltrona aqui com uma xícara de café e ficar olhando para ele o resto da minha vida, e ser feliz'", disse Shaw.

A casa de leilões contratou uma firma de design para projetar a iluminação da pintura em Nova York, cobrindo as claraboias e janelas para permitir que a pintura brilhasse como se tivesse uma luz interior.

O negociante de arte de Mônaco David Nahmad disse que pode fazer uma oferta por "O Grito" se os lances ficarem em torno de US$ 80 milhões, mas não se saltarem acima disso. É um investimento delicado, diz ele, pois o nome Munch não é tão reconhecível quanto outros e o valor de revenda não é garantido: "Se tivesse que escolher entre comprar um Picasso ou um Munch, preferiria comprar um Picasso", diz ele. "Todo mundo sabe tudo sobre Picasso, Matisse, Cézanne, Monet. Se você chegar para alguém da América do Sul e dizer que tem um Munch para vender, ele vai dizer: 'Quem é esse?'."

A versão de "O Grito" que será leiloada na Sotheby's é uma mistura clara de 12 cores diferentes, com a figura esquelética no primeiro plano tendo uma narina azul e outra marrom. O terceiro de uma série criada entre 1893 e 1910, o quadro foi pintado com pastel sobre cartão. Alguns negociantes de arte consideram o pastel uma desvantagem, embora outros digam que as linhas e cores são mais elétricas do que nas versões a óleo. A pintura oferece uma atração especial: sua moldura, gravada com o poema original que Munch escreveu em 1892 e que dizem ter inspirado a obra. Nele, o pintor se descreve caminhando por um fiorde, "tremendo de ansiedade" e sentindo "um grito infinito atravessando a natureza".

Antes do leilão, a Sotheby's mandou publicar um livro de capa dura e edição limitada para os principais clientes. Ela também produziu dois vídeos para promover o leilão de "O Grito".

Munch não necessariamente se incomodaria com tamanha campanha de divulgação em massa. O artista, cujo trabalho já foi considerado tão subversivo que os pais eram alertados de que poderia dar catapora nos seus filhos, era um mestre do marketing. O norueguês, apelidado de "Bizarro" no início da carreira, foi um dos primeiros artistas a cobrar entrada para as exposições de seus quadros. Ele fez isso em 1892, depois que o kaiser fez um discurso na Alemanha contra suas pinturas. Munch não estava ganhando dinheiro com a venda das obras, mas pelo menos podia embolsar o ingresso das exposições.

Quando Munch criou a primeira versão de "O Grito", o artista alcoólatra e fumante inveterado estava num estado de desespero: acabara de fazer 30 anos, não tinha dinheiro, recuperava-se de um caso de amor desastroso e tinha pavor de sucumbir aos problemas mentais que corriam na família, diz Sue Prideaux, uma especialista em Munch. O artista colocou sua figura amebóide num local da baía de Oslo que era conhecido pelos suicídios. De lá, os passantes podiam ouvir os gritos de um matadouro e um manicômio próximos, diz Prideaux, acrescentando que a irmã de Munch, que foi diagnosticada com esquizofrenia, ficou internada naquele asilo. Uma possível interpretação errônea sobre seu trabalho pode ser sobre o grito em si: muitos historiadores da arte dizem que a personagem não está berrando, mas bloqueando o som da gritaria ao redor.

Os historiadores da arte consideram "O Grito" a reação de Munch ao impressionismo, que parecia entediá-lo — ele dizia que o movimento só mostrava pessoas lendo ou tricotando — e que abriu uma nova era de expressionismo em que os artistas tentavam dissecar suas próprias essências psicológicas. Quando ele pintou "O Grito", Munch já estava lendo os mesmo livros e participando das mesmas palestras em hospitais que Sigmundo Freud, diz Prideaux. Anos antes do primeiro "O Grito", Friedrich Nietzche havia lançado sua famosa ideia filosófica de que "Deus está morto", abrindo o caminho para as explorações modernas da alienação.

A imagem atraiu rapidamente a atenção da turma mais progressista da arte europeia. Para espremer o máximo desse entusiasmo, Munch criou litografias em preto e branco para que a imagem pudesse ser impressa em revistas europeias e vendida individualmente. Ele se recusou a explicar o quadro, alimentando ainda mais a fascinação do público.

Mais recentemente, a figura esquelética já foi reproduzida várias vezes e em vários lugares, de formas para cubos de gelo a pôsteres de campanha política.

Tamanha celebridade mundial já tornou o quadro um alvo. Os apostadores londrinos têm dado 1 chance em 20 de ele ser roubado antes do leilão. Duas outras versões de "O Grito" já foram roubadas de museus de Oslo. Outras duas foram roubadas e recuperadas, uma na National Gallery, em Londres e outra no Museu Munch, em Oslo.

A Sotheby's está preparando há muito tempo o terreno para o leilão do quadro de Munch, tendo organizado oito dos dez maiores leilões de quadros do pintor nos últimos anos. "Temos tentado muito conscientemente e estrategicamente ampliar o prestígio dele e criar um mercado mundial", diz Shaw.

Mas, como poucos quadros de Munch já foram a leilão, os colecionadores não têm um histórico de vendas em que se amparar, o que pode prejudicar a confiança de potenciais compradores.

O colecionador de arte nova-iorquino David Nash, que por muitos anos comandou o departamento mundial de arte impressionista e moderna da Sotheby's, se diz surpreso com a estratégia da casa de leilões para "O Grito". "Parece que não há muita justificativa para uma estimativa tão alta", diz ele. "Seria melhor para eles apresentar uma estimativa mais realista e deixar o mercado determinar qual será o preço final."

Outros, porém, estão mais otimistas: a Skate's Art Market Research, que analisa o mercado mundial de arte, prevê que a pintura alcançará um valor entre US$ 92,5 milhões e US$ 123,4 milhões. Ela chegou a esse número, em parte, depois de analisar as vendas de outros quadros famosos de artistas como Paul Gauguin e Vincent van Gogh. O recorde de preço de um quadro vendido em leilão foi estabelecido em 2010, quando "Nu, Folhas Verdes e Busto", de Picasso, foi arrematado por US$ 106,5 milhões na Christie's. A atual temporada de leilões da Christie's e da Sotheby's está repleta de obras que devem ser vendidas a mais de US$ 20 milhões, um nível de estimativa que era raro até dez anos atrás.

O dono de "O Grito", Petter Olsen, um norueguês herdeiro de transporte marítimo e de imóveis, está tentando faturar alto com a venda. Ele dispensou a garantia de preço — um acordo geralmente usado na venda de obras de arte notáveis, em que a casa de leilões garante ao vendedor um valor mínimo em troca de uma comissão maior.

Olsen, que através da Sotheby's recusou-se a dar entrevista, cresceu tendo o quadro na sala de estar da casa da sua infância. Ela pertencia a seu pai, Thomas Olsen, que comprava quadros de Munch e foi seu vizinho na pequena cidade norueguesa de Hvisten. Durante a Segunda Guerra, Thomas escondeu "O Grito" e dezenas de outros quadros de Munch num celeiro de feno afastado para protegê-los dos nazistas, que andavam queimando obras de arte que consideravam imorais.

O quadro passou pelas mãos de apenas três famílias desde que foi pintado. Seu primeiro dono foi um magnata alemão do café, que provavelmente mandou pintar o quadro. Olsen já disse que está vendendo a pintura para financiar um museu para a obra de Munch em Hvisten, que será inaugurado ano que vem.

O ano que vem marca os 150 anos do nascimento de Munch, ocasião que será celebrada por uma grande exposição na Noruega com a participação de vários museus. Fonte The Wall Street Journal.
Narciso Machado

NCM Business Intelligence

Os truques da Sotheby's para vender 'O Grito'